Vestido vermelho

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Peguei meu vestido favorito na última gaveta do armário e tirei a poeira do único par de botas de salto disponível. Fiz as sobrancelhas, passei um esmalte clarinho nas unhas e até escovei o cabelo. Fazia tempo que não enxergava meu reflexo no espelho tão parecido comigo mesma. As coisas não andaram muito bem nos últimos meses. Juntar os pedaços de um coração partido toma tempo sabe. Um último retoque de gloss nos lábios e um pouquinho mais de perfume. O táxi buzinou duas vezes seguidas no portão de casa.

Desci as escadas pronta para encarar a vida lá fora.

Faziam exatos seis meses que eu não voltava àquele clube. Mesmo com a música alta e todas ás luzes haviam outras coisas ali que eu queria manter só para mim apesar de tudo. O encontro e a despedida, ás muitas conversas no canto do balcão, o primeiro beijo bem no centro da pista e o seu olhar quando desci as escadas recusando olhar para trás. Nunca algo pesou tanto em meus ombros. Era possível sentir o passado ali ao fechar os olhos.

Vários grupinhos riam e se divertiam por todo o salão. A noite exalava alegria e drinks entre um remix e outro. Por longos minutos me permiti ser parte daquele lugar mesmo agora sendo só eu. No fim das contas acho que só é possível encarar o passado quando estamos realmente dispostos a mudar. De vida. De maquiagem. De sentimentos. Tudo depende de como queremos olhar.

E várias músicas depois eu ainda olhava. O passado encontrando o presente bem ali na minha frente, vindo na minha direção vestindo uma camisa azul de estampa xadrez comprada no Natal do último ano. Eu sabia pois foi eu quem escolhi e que só ficaria bem nele e em mais ninguém. Me notou do mesmo jeito que notei o seu sorriso. Ele estava bem. Algo revirou dentro de mim.

Então eu desci as escadas novamente. Dei as costas para aquilo que um dia eu sempre quis abraçar. Nem todos estamos preparados para recomeçar ao mesmo tempo mas agora eu já sabia o melhor pra mim. Agora ele eu já não sei. Eu só pensava naqueles olhos. Mas dessa vez naqueles que me encararam mais cedo no espelho. Eram mais brilhantes agora acompanhados do mais lindo vestido vermelho.

É que bem lá no fundo todo mundo sabe que a música não precisa ser sempre sobre alguém. O nosso lugar ainda pode contar as vírgulas que existiram antes do ponto final. Sem doer. Só sendo uma boa lembrança. E os contos de fada não precisam ser sempre sobre encontros de príncipes e princesas. Ás vezes pode ser sobre o melhor final (ou recomeço) para cada um de nós.

 

 

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